quarta-feira, 25 de junho de 2008

há crianças nas árvores que absorvem a noite

Há crianças nas árvores que absorvem a noite,
enquanto as estrelas caiem frias no chão,
e a luz se esvai pela terra em caminhos húmidos.

As crianças que levam os fins dos dias, e correm
ensurdecedoras e felizes,
prenunciam a noite no sibilar das folhas,
e encerram as janelas nas paredes,
e nos quartos, verdes e ásperos,
um cheiro de éter escorre.

Há crianças nas árvores que absorvem a luz pálida da manhã próxima,
um dia já fora do nosso alcance.

[Ruud van Empel]













segunda-feira, 23 de junho de 2008

acordo com o medo do frio que a tua mão me leva ao respirar

Acordo com o medo do frio que a tua mão me leva ao respirar.

No meu ventre aberto as tuas asas batem furiosas e o meu peito pára.
Cruzo as mãos sobre as águas salgadas onde os bicos dos pássaros mergulham,
agudos e ácidos, levando-me nas dores que já não são minhas.
Sopram-me rasgadamente pelo ar cinza irrespirável,
e não há tréguas, nem perdão.
Existe sim um fim súbito, recusado e prolongado,
e a alma escurecida e culpada, sobrevive.

terça-feira, 17 de junho de 2008

O tempo que o sono come

O verde gelou, e as almas perdem-se rasteiras, sonâmbulas.

Tudo agora tão branco e esquelético,
e um cheiro a incenso e alfazema,
como se estivessemos guardados, desde sempre, numa gaveta.

A madeira range quando pensamos respirar,
como um aviso, uma ameaça velada,
e há um choro tardio que fica para trás...
uma ladaínha breve a marcar o tempo que o sono come.
[Ruud van Empel]