quarta-feira, 15 de junho de 2011

em fuga

querer, com tempo,
ficar antes de partir,
apenas permanecer e depois sair.

saber, a tempo,
que é a vida, apenas a vida que foge devagar,
é apenas a sua fuga permanente, lenta e assustadora.

ficar, sem tempo.

[Harry Callahan]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

um rio longo e pesado como o véu de uma noiva

da minha cabeça escorre um rio
longo e pesado como o véu de uma noiva,
e tu, meu amor, nos meus olhos cerrados e no meu caminho
estendes-me o braço, e depois a tua mão que se abre
sem revelações e sem sombras,
não me diz se te libertas ou se desistes de me salvar.

há flores brancas no céu,
cordas presas no horizonte que arrastam a luz como o véu de uma noiva,
no tecido translúcido e solitário a minha alma esconde-se,
e pelas portas abertas, pelas casas vazias,
um hálito de sépia espalha-se
na hora da minha pequena e insustentável morte.

da minha cabeça escorre um rio
longo e pesado como o véu de uma noiva
e tu, meu doloroso e antecipado amor, és agora o meu fim.
[Brigitte Carnochan]

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

outro ser, outra de mim

o vislumbre de ti ficou para trás com um arrasto da tua cor
mesmo depois do combóio partir,
e do timbre alterado do teu adeus a minha saudade evade-se.

depois mesmo de retomar a vida
ainda o tremor do chão se aquieta nos meus pés,
e partes de mim seguem outro caminho, pequenos animais rastejantes,
embriões que sossegam como sementes suspensas na claridade do dia.

sou outro ser, outra de mim