terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

digo-te até amanhã


[o poema de António Lobo Antunes que encontrei num blog e publiquei no hálito azul da tarde...não me sai da cabeça...escrevi este, inspirado no anterior de uma forma absolutamente descarada mas ainda assim humilde]

não disse nada amor,
disse apenas até amanhã!
digo-te até amanhã,
porque à noite todas as promessas são trémulas
mas ainda assim o coração sossega,

ele sossega não sei porquê, mas à noite não procuro razões.

não disse nada amor
espero apenas pela manhã,
e estou cansada porque de noite os caminhos não têm fim
e eu nunca chego onde devo, nunca chego a ti, nunca chego onde preciso,

não disse nada amor,
disse apenas até amanhã!
digo-te até amanhã.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

entre nós


entre nós
as palavras
e dentro de nós uma surdez,

entre nós
a densa negrura de muitas noites,
e uma chuva dentro de nós a encher-nos os pulmões,

entre nós
um único fôlego de pele a consumir,
e dentro de nós a clara chama que nos acende,

entre nós
a dúvida que cai dos lábios,
e nada dentro de nós que a dissipe,

entre nós
o eco dos teus dedos,
e dentro de mim apenas luz,

entre nós
eu estou aqui,
eu estou aqui como se estivesse dentro de nós.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

habitas-me sem eu querer


habitas-me sem eu querer,
e sem te querer perder
quero tornar infinito o instante mais breve da minha vida.

sou metade de mim,
metade vazia, metade tóxica,
metade que ainda espera,
metade consagrada ao meu medo e ao teu fim.

só eu sei que exististe,
e que depois tudo mudou.

e perco-me.

perco-me no espaço miúdo e deserto,
na crueza da tua inexistência.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sinto delicadamente o ressentimento

sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu.

a distância que consentiste prolongar e transformar em esquecimento,
tecida de silêncio omisso, de tempo não pronunciado.

assim estou nesta manhã, ausente e longe do centro,
na fronteira amena do coração,
e vejo pássaros de asas azuis que deixam cair as tuas últimas palavras
escritas, que te espalham à minha volta,
e olho para linhas de horizonte onde deverias surgir,
regressando de lugares onde
apenas uma sombra morna te denuncia.

sinto delicadamente o ressentimento
dessa ausência que te traiu,
mas não foi acaso encontrar-te antes,
nem circunstancial ou abstracto o nosso entendimento.

há uma mensagem escondida e secreta
nesta manhã,
um tempo a vir, já escrito,
um mês próximo de remissão,
e um recomeço.